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Documento n° PLEN 02.5Para informação
Pluralidade religiosa e autocompreensão Cristã Reflexões de um missionário protestante
Prof. Dr. Assaad Elias Kattan Wilhelms-Universität Münster, Alemanha
Um missionário relata:
1. Sou um missionário. Meu pai foi missionário, e também meu avô. Sou um missionário protestante. Mas bem poderia também ser um missionário católico ou ortodoxo. Justamente hoje em dia a filiação confessional já não parece fazer grande diferença. Pois no 3º milênio certamente a pergunta sobre qual seja a denominação mais importante em termos de números e expansão será menos significativa do que a outra: se o cristianismo ainda estará dominando a cena.
2. Sou um missionário. Sou de uma família em que quase todos são missionários. Um dos meus antepassados veio para o Oriente Próximo – onde mais tarde todos passamos a viver - , para anunciar o evangelho aos muçulmanos. Infelizmente – ou quiçá, felizmente – os missionários ocidentais tiveram pouco êxito entre os muçulmanos. Por isso meus antepassados se voltaram para os cristãos naturais dali. Não resta dúvida de que tiveram as melhores intenções; eram muito zelosos e dedicados, se bem que por vezes tendiam a identificar o evangelho com a configuração que teve em sua própria cultura. Muitas pessoas nativas do Oriente Próximo reconhecem hoje que os missionários deixaram um importante legado no que diz respeito a educação, liberdade e democracia. Sim, tiveram as melhores intenções, aqueles meus antepassados; tão boas que alguns deles eram da opinião de que somente os cristãos naturais dali poderiam ter algum sucesso em evangelizar os muçulmanos. Pois compartilham com os muçulmanos da mesma língua e cultura. Mas para isso as próprias igrejas auctóctenes precisariam ser reformadas, uma vez que o evangelho no decorrer do tempo teria sido entstellt deturpado pelas múltiplas tradições. Justamente o fato de que os cristãos locais gostavam dos quadros de Jesus, de Maria e dos santos era considerado pelos meus antepassados um sério empecilho para convencer os muçulmanos da notória verdade do cristianismo Nisso entra em jogo uma lógica que certamente hoje nenhum protestante de sã consciência iria aceitar. Pois os tempos da iconofobia protestante e da glorificação da própria cultura são coisas do passado. Contudo, eles tinham as melhores intenções, aqueles meus antepassados. Mas não se deram conta de uma coisa. Se bem que um número razoável de cristãos locais de fato se dispunha a admitir reformas, muito poucos deles tinham interesse em tornar cristãos os muçulmanos. Claro, a sua história com os muçulmanos nem sempre era só leite e mel. E muitos daqueles que hoje, em conflito com o mundo ocidental, tentam idealisar essa história não fazem nada mais do que construir um mito, um mito que precisa ser desmitologizado. Mas apesar das tensões com os muçulmanos, apesar de ocasionais perseguições e massacres, os cristãos residentes estavam satisfeitos com os seus vizinhos islâmicos tais como são. E estes vizinhos com certa freqüência vinham visitá-los, e não só “às escondidas” para poderem tomar vinho, mas por vezes também para participar das orações.
3. Sou um missionário. Não resta dúvida de que a nossa atividade missionária foi boa para as pessoas residentes no Oriente Próximo, quer tenhamsido sido cristãos, muçulamos ou judeus. Traduzimos a Bíblia para o idioma árabe e com isso contruímos para um novo florescimento da língua e da literatura árabes. Abrimos escolas, universidades e hospitais, e transmitimos assim os valores do evangelho através de pessoas movidas pelo espírito vivo de Deus. Mas preciso confessar que se tratava de um processo de aprendizagem mútua. Nesse contexto naturalmente eu poderia relatar muita coisa que ouvi do meu pai e avô. Mas vou limitar-me a alguns aspectos das minhas experiências pessoais.. Na minha qualidade de missionário no Oriente Próximo amiúde tive contato com literatura árabe. Um dos cristãos árabes de lá escreveu um bonito romance para o qual ele se inspirou num canto litúrgico que, na Igreja Ortodoxa do rito bizantino, é cantado na Sexta-Feira da Paixão. Neste canto José de Arimatéia se dirige a Pilatos pedindo o corpo de Jesus, em termos fictícios que retratam o Senhor falecido como um forasteiro:
Dá-me o forasteiro, estranho como um forasteiro desde criança dá-me o forasteiro, morto como forasteiro, dá-me o forasteiro, me admira que seja hóspede da morte
O que me impressiona neste hino é que Jesus é percebido como estranho não só no dia da sua morte, como se todas as pessoas vivas tivessem falhado em recebê-lo, como se não lhe tivesse restado outra saída senão buscar hospitalidade no reino da morte; mas além disso ele é retratado como estranho desde criança. A condição da estranheza de Jesus, portanto, não era uma condição pontual daquele momento, e sim, situação permanente. Creio que o motivo por que guardo esse quadro na memória tem a ver com fato de que a nossa condição como missionários é fortemente determinada pelo parâmetro da “estranheza”, do ser-estranho. Somos estranhos, vivemos em terra estranha, somos percebidos como estranhos. Mas a realidade com a qual lidamos também é estranha. Haverá nela sempre uma parcela de estranheza, apesar de todos os nossos esforços para ir ao encontro do estranho para torná-lo mais familiar. Mas Jesus, que neste hino aparece como forasteiro, identifica-se não apenas conosco, os missionários, que de qualquer forma vivem em mundo estranho, mas também com aquelas pessoas com as quais nos encontramos e que nos parecem estranhas, independentemente do contexto cultural a que pertencem.
4. Sou um missionário que – certamente como muitos outros missionários – com recorrência reflete sobre a pergunta pelo significado da identidade cristã com relação ao encontro com as outras religiões. Qual a relação da perspectiva própria com a perspectiva de outros, do próprio lugar com os lugares de outros, da própria fé com as filiações religiosas de outros? E exatamente como muitos outros missionários não tenho resposta clara, apesar de profunda confiança no evangelho. Na maioria das vezes sinto-me como dilacerado e atordoado por centenas de perguntas, assim como se “Jesus se revelasse enquanto se oculta, e se ocultasse enquanto se revela”. Mas de uma coisa tenho certeza: quando uma pessoa é batizada na morte de Jesus, então ela se encontra com o Crucificado. Tentem retratar esse encontro na fantasia. O batizando é deslocado para o Gólgota. Ele procura Jesus de Nazaré para morrer a sua morte. E o que ele vê ali? Na cruz o Nazareno não está só. Ao lado dele estão colocadas duas outras cruzes, duas cruzes com rostos desconhecidos. Tudo acontece muito depressa: a bebida amarga, o abandono por Deus, o grito. E então todas as três cruzes são tragadas pelo silenciar de Deus, como que por uma nuvem vétero-testamentária que acompanha um povo estranho por através do deserto e prenuncia a luz da ressurreição. Muito missionário desenvolveu ao longo do tempo uma sensibilidade para o poder de Deus que, por vezes, como na cruz, se dá a reconhecer no silenciar: no nosso silenciar, no silenciar dos acontecimentos que não mereceram ser registrados nos livros da história, no silenciar das nossas instituições eclesiásticas frustrantes, no silenciar que procede de outras religiões.
5. Nós, cristãos, temos dificuldade em definir ide forma inequívoca a nossa identidade. Mas tenho a impressão de que o acontecimento da cruz, o qual todos confessamos, pode dar-nos condições para integrar na nossa identidade a estranheza, a dilaceração e o silenciar. E justamente aí pode abrir-se uma porta para os outros, do lado de fora. Uma tentativa de definir a identidade cristã nunca poderá passar de largo da cruz.
Cf. Ulrich Schoen, Die Fliehkraft und die Schwerkraft Gottes: Ausbreitung der Christenheit und Begegnung der Religionen in den letzten zweitausend Jahren I, Münster 2003, p. 17-20 (Ecumenical Studies 23). Cf. Henry Harris Jessup, The Greek Church and Protestant Missions or Missions to the Oritental Churches, Beirut-Syria 1891.
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